Ontem terminou a etapa final do POM 2026, em Fátima, onde os grandes protagonistas foram o Rafael Miguel e o Bruno Nazário, o diretor e o diretor técnico do evento, respetivamente.
A história começou a 24 de janeiro de 2026, quando as previsões meteorológicas indicavam que fevereiro seria um mês de muita chuva, exceto nos dias do Portugal O Meeting. Nesse dia, o Rafael escreveu num fórum privado: “Quase que digo que, se estiver assim, vou de Mira a Fátima a correr!”

A pausa na chuva e o sol acabariam por surgir entre 13 e 18 de fevereiro, proporcionando um evento sem precipitação após quase três meses consecutivos de chuva. Mal se sabia que a tempestade Kristin assolaria Portugal a 28 de janeiro, destruindo vasta área florestal, mas, felizmente, sem provocar danos na área do mapa de Mira Norte, cartografado ao detalhe pelo Rafael, ao longo do último meio ano, e revisto pelos atletas do Ori-Estarreja durante dois dias consecutivos, à procura de alterações no terreno após a tempestade.
Nem a necessidade de, na semana anterior ao POM 2026, construir passagens sobre linhas de água e em caminhos habitualmente secos fez mudar os planos. Levar a cabo o evento tal como idealizado era, para todos, um desígnio inabalável.
A bonança chegou no fim de semana de Carnaval. O POM 2026 revelou-se um evento de excelência: São Pedro concedeu a trégua prometida e o Ori-Estarreja demonstrou que, apesar das dificuldades, esteve à altura de todo o trabalho técnico prévio desenvolvido pelo Rafael e pelo Bruno, para satisfação de 2600 atletas provenientes de 37 países.
Ao cair do pano do POM 2026, a promessa foi relembrada e no fim de semana da Páscoa foi colocada em marcha.
Nesta Sexta-Feira Santa, precisamente na Arena do POM 2026, iniciou-se o cumprimento da promessa de ir até Fátima: o Rafael a correr, o Bruno a pedalar, prestando apoio permanente com alimentação, hidratação e motivação. A Inês Aires assegurou a logística ao longo das etapas.
De Mira Norte à Guia, a primeira etapa foi concluída em 5h38m38s, num total de 66,16 km, ao ritmo de 5m07s/km, com apenas 20 minutos de pausa para alimentação.

Após um final de dia e uma noite de descanso, os dois peregrinos regressaram, na manhã seguinte, à porta da Igreja da Guia para retomar o percurso, momento em que surgiu a primeira surpresa do dia: o atleta do Ori-Estarreja André Pedrosa juntou-se ao percurso para marcar o ritmo durante 20 km e ajudar a manter o foco no objetivo final.

Os últimos 23 km até Fátima trouxeram subidas exigentes e, com elas, o desgaste. O Rafael teve de abrandar ligeiramente o ritmo nas ascensões, mas raramente recorreu ao passo.

A cerca de 6 km do final deu-se a segunda surpresa do dia: o Ori-Estarreja esperava o Rafael e o Bruno em Santa Catarina da Serra, com uma comitiva de seis elementos, vindos da “casa-mãe”, para os acompanhar até ao Santuário de Fátima, a pé e de bicicleta, já com a Inês e o André integrados no grupo. Na carrinha, o sócio fundador Altino Silva assegurou o apoio final.
E foi então que presenciámos um momento inesquecível. Assim que Rafael sentiu a presença e o apoio dos colegas de clube, a fadiga pareceu desaparecer, a motivação atingiu o máximo e o ritmo aumentou significativamente. Ninguém, excepto as bicicletas, conseguiu chegar ao mesmo tempo que ele à Cova de Iria. Ainda seguimos algum tempo em grupo, mas era impossível travar esta força da natureza, que percorreu os últimos 2,5 km a menos de 5 minutos por quilómetro.

Num final marcado pelo calor e pela emoção, reagrupámo-nos na escadaria da Basílica do Santuário, onde restava apenas dar um sentido abraço aos protagonistas, após 3h59m52s para completar os 42,29 km da segunda etapa, a um ritmo impressionante de 5m40s/km.

Neste momento, todos sentimos que a força e a motivação demonstradas pelo Rafael durante o POM, aliadas ao critério e ao rigor técnico do Bruno Nazário, foram os mesmos ingredientes que permitiram concretizar esta proeza. Ficou a sensação de que tudo foi possível, de que acreditar no esforço e no companheirismo vale a pena e de que este tipo de promessa tem um lado profundamente positivo: o da superação e o do exemplo, mostrando que “Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce” (cit. Fernando Pessoa).
Escrevo este texto com a satisfação de quem presenciou um ato que está ao alcance de um atleta de Elite — alguém que faz da Orientação a sua vida e que se transforma numa fonte de inspiração.
Ass: Nuno Pires


